Avaliar a visão de populações indígenas de contato recente exige instrumentos pensados para a realidade cultural de cada povo. Foi esse o desafio enfrentado por uma equipe de pesquisadores de Roraima, que desenvolveu um teste de acuidade visual baseado em imagens, criado especificamente para o povo Yanomami. O estudo foi publicado pela revista Qualis A Open Minds, propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena.
A pesquisa é assinada por Heleno Almeida Lima, da Plazma Studios, em Boa Vista, e por Maria Christina Chagas Ferreira, Marcos Antonio Pellegrini e Bianca Jorge Sequeira, da Universidade Federal de Roraima.
Por que a tabela de Snellen não funciona para todo mundo
O teste de visão mais usado no mundo, conhecido como tabela de Snellen, foi criado dentro de um modelo visual ocidental, baseado no reconhecimento do alfabeto romano e de formas tipográficas padronizadas. O problema é que seu desempenho depende de familiaridade prévia com esses símbolos abstratos.
O povo Yanomami é majoritariamente não alfabetizado, organizado em diferentes subgrupos linguísticos e distribuído por amplas regiões da floresta amazônica. Segundo os pesquisadores, o contato desse povo com a escrita ocidental ainda é recente, limitado e esporádico. Por isso, letras e formas tipográficas simplesmente não fazem sentido para a maior parte dessa população, o que pode gerar erros de diagnóstico que nada têm a ver com a real capacidade visual do paciente.
Da floresta para o papel: como os símbolos foram escolhidos
Para resolver esse problema, a equipe passou por um processo de pesquisa que uniu semiótica, oftalmologia e antropologia. O primeiro passo foi identificar elementos visualmente familiares ao universo Yanomami, com base em descrições etnográficas reunidas no livro A Queda do Céu, do xamã Davi Kopenawa em parceria com o antropólogo Bruce Albert.
A partir desse levantamento, os pesquisadores selecionaram cinco símbolos para compor a tabela de longe:
● Tartaruga
● Cobra
● Tucano
● Árvore
● Helicóptero
Cada imagem passou por um processo de simplificação gráfica, até se tornar um desenho vetorial com contornos estáveis, alto contraste e proporções calculadas para funcionar como um optótipo, ou seja, o símbolo usado para medir a acuidade visual em testes oftalmológicos.
Testado com 158 pessoas em Boa Vista
O instrumento foi avaliado entre 2022 e 2024, durante um estudo sobre saúde ocular conduzido na Casa de Saúde Indígena Yanomami, o CASAI Y, em Boa Vista. Ao todo, 158 pessoas do grupo étnico Yanomami, a partir de 5 anos de idade, participaram da pesquisa, com mediação de intérpretes bilíngues, já que a maioria fala apenas a língua Yanomami e não tem alfabetização formal.
A validação comparou o desempenho da nova tabela com o teste tradicional invertido conhecido como E de Snellen. Segundo os resultados, os dois instrumentos apresentaram equivalência funcional na identificação dos níveis de acuidade visual. A diferença apareceu na fluidez do teste: a tabela pictográfica gerou respostas mais rápidas e exigiu menos instrução prévia, sinal de maior familiaridade cognitiva com os símbolos adaptados.
O helicóptero que virou símbolo mais reconhecido de todos
Um dos achados mais curiosos do estudo diz respeito justamente ao símbolo do helicóptero, chamado pelos Yanomami de buru buru, numa referência sonora ao barulho do rotor. Entre todos os desenhos testados, ele foi o mais rapidamente identificado, tanto por adultos quanto por crianças.
O detalhe é que, diferentemente da tartaruga, do tucano ou da árvore, o helicóptero não é um elemento originário da floresta. Ele é um objeto do contato interétnico, incorporado ao cotidiano Yanomami por meio de atividades de saúde, abastecimento e comunicação em territórios de difícil acesso. Para os pesquisadores, esse resultado mostra que o repertório visual de um povo em contato recente com a cultura ocidental não é estático, mas um sistema vivo, que absorve e resignifica elementos externos sem perder sua coerência interna.
Um modelo pensado também para a visão de perto
Além da tabela para visão de longe, a equipe desenvolveu uma versão para avaliação de visão de perto, adaptada da escala Jaeger e organizada para testes a 37 centímetros de distância. O material usa o mesmo conjunto de símbolos, redimensionado, o que garante consistência entre os dois instrumentos.
Todo o material foi desenvolvido para impressão de baixo custo em papel A4, fácil transporte e uso em campo, incluindo a possibilidade de ser afixado em paredes, portas ou estruturas improvisadas durante atendimentos móveis em áreas remotas.
Um caminho possível para outros povos indígenas
A pesquisa foi conduzida de acordo com os princípios éticos da Declaração de Helsinque e aprovada por comitê de ética em pesquisa, sob protocolo específico. Os autores reconhecem limitações, como a impossibilidade de aplicar protocolos psicofísicos formais dadas as condições de campo, o que tornou necessária uma validação de caráter observacional.
Ainda assim, os resultados preliminares indicam que a tabela pictográfica Yanomami é uma ferramenta promissora para triagens clínicas e epidemiológicas em contextos indígenas, e pode servir de modelo para adaptações semelhantes em outros povos no Brasil ou no exterior.
Este texto tem caráter informativo e baseia se em um estudo científico voltado ao desenvolvimento de instrumentos de triagem visual. Ele não substitui uma avaliação oftalmológica completa, que deve sempre ser feita por um profissional de saúde.
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