quarta-feira, 22 de julho de 2026

Signos Existem? Neurocientista Explica a Verdadeira Relação Entre a Época de Nascimento e o Comportamento Humano

A procura por respostas sobre a nossa identidade e comportamento na posição dos astros é uma das práticas mais antigas da humanidade. No entanto, a ciência moderna oferece uma perspetiva diferente. O Dr. Fabiano de Abreu Agrela, PhD em Neurociências pela Universidade Azteca, membro da Royal Society of Biology no Reino Unido, da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e da Society for Neuroscience nos Estados Unidos, analisa o tema sob a ótica da biologia e da genética, revelando o que realmente define a nossa personalidade.

Quando questionado sobre o impacto da astrologia no quotidiano, o investigador português propõe um modelo focado no peso relativo de cada variável em vez de respostas absolutas.

O Modelo de Percentuais e a Primazia Genética

Para o neurocientista, a formação da nossa personalidade resulta de uma combinação complexa de fatores, onde a biologia desempenha o papel principal. A hereditariedade define o ponto de partida do desenvolvimento de cada indivíduo.

"Quando me perguntam se acredito em signos, eu costumo responder da seguinte forma: eu trabalho muito com a ideia de percentuais. Nenhum fator, isoladamente, explica a personalidade humana. A personalidade tem uma predisposição genética importante e também sofre influência de fatores ambientais. Na minha visão, o precursor é sempre genético. Isso não significa que o ambiente não tenha influência; significa que, muitas vezes, ele atua sobre predisposições que já existem. Por isso, a genética acaba tendo um peso predominante na formação da personalidade."

Estudos científicos contemporâneos sobre gémeos confirmam esta visão, indicando que a herdabilidade das características de personalidade situa-se geralmente entre 40 por cento e 60 por cento. O restante do perfil comportamental é moldado por experiências de vida únicas e pelo ambiente em que o indivíduo cresce. Porém, o ambiente é guiado por esses percentuais genéticos. 

A Época de Nascimento versus o Signo Astrológico

A relação indireta que muitas pessoas encontram entre a sua personalidade e o respetivo signo pode, na verdade, ter uma base biológica fundamentada nas estações do ano, e não no alinhamento das constelações.

"O signo pode ter alguma relação indireta com a personalidade porque ele coincide com uma determinada época do ano", esclarece o Dr. Fabiano de Abreu Agrela. "A estação, o clima, o posicionamento da Terra em relação ao Sol, a duração dos dias, entre outros fatores ambientais, podem exercer alguma influência sobre o desenvolvimento. Sabemos que o ambiente influencia o organismo, e isso é compatível com o que conhecemos sobre evolução e biologia."

No entanto, o especialista sublinha que este impacto não deve ser sobrevalorizado:

"Isso não significa que o signo seja o responsável pela personalidade. Não podemos atribuir a ele um peso que ele provavelmente não tem. Vamos imaginar, de forma hipotética, que a personalidade seja composta por mil traços comportamentais. Nesse cenário, o signo talvez influenciasse apenas vinte ou trinta desses traços, enquanto centenas de outros dependeriam principalmente da genética, do desenvolvimento e das experiências de vida."

Do ponto de vista da neurociência, a exposição da grávida à luz solar, a absorção de vitamina D, a incidência de infeções sazonais e as variações de temperatura durante a gestação e nos primeiros meses de vida do bebé podem causar pequenas alterações no desenvolvimento. Contudo, estas influências são classificadas cientificamente como fatores sazonais do desenvolvimento e não possuem qualquer ligação causal com divisões arbitrárias do céu ou com a posição aparente do Sol em relação às constelações.

O Efeito Barnum e a Ilusão de Precisão

Se a influência dos astros carece de evidência científica robusta, porque é que tantas pessoas se sentem perfeitamente representadas pelas descrições do seu horóscopo? A resposta reside num fenómeno psicológico amplamente estudado pela ciência cognitiva: o efeito Barnum (também conhecido como efeito Forer).

De acordo com o Dr. Fabiano de Abreu Agrela, as pessoas tendem a focar-se apenas nos traços que coincidem com a descrição do seu signo. Ao encontrarem estas coincidências, generalizam e passam a acreditar que o signo é o principal responsável pelo seu comportamento, quando na realidade ele representaria apenas uma parte ínfima de um ecossistema muito mais vasto de fatores.

As descrições astrológicas são escritas de forma genérica e abrangente, permitindo que quase qualquer pessoa se identifique com as características apresentadas. O cérebro humano, que procura constantemente padrões e validações para a sua própria identidade, tende a registar os pontos de contacto com o horóscopo e a ignorar todas as inconsistências que contrariam a previsão.

A ciência demonstra que o nosso comportamento é um mosaico complexo dominado pela genética, pelo desenvolvimento do sistema nervoso e pelas interações sociais. Embora a época do ano em que nascemos possa exercer uma pequena influência biológica e nutricional no nosso organismo, o destino da nossa personalidade continua a ser escrito pela biologia e pelas escolhas que fazemos ao longo da vida, livre da influência das estrelas.


Fabiano de Abreu 
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