sábado, 10 de outubro de 2026

 

Entenda por que não é correto dizer que a Mensa é uma sociedade formada apenas por superdotados

A organização reúne pessoas que atingiram os 2% superiores em testes de inteligência aceitos pela entidade. Mas pertencer à Mensa e ser formalmente identificado como superdotado não são necessariamente a mesma coisa.

A Mensa é conhecida mundialmente como uma sociedade de alto QI, mas classificá-la simplesmente como uma “sociedade de superdotados” pode gerar uma equivalência que não existe em diferentes sistemas científicos, educacionais e jurídicos. Para entrar na organização, o requisito essencial é atingir pelo menos o percentil 98, ou seja, estar entre os 2% de melhor desempenho num teste de inteligência aprovado e adequadamente administrado. A própria Mensa afirma que não exige outra qualificação para a admissão.

Isso comprova desempenho intelectual muito elevado naquele instrumento, mas não significa automaticamente que o membro tenha passado por um processo formal de identificação de altas habilidades ou superdotação segundo os critérios adotados no seu país. A própria Mensa utiliza a palavra inglesa gifted para quem alcança os 2% superiores dentro do contexto da organização. Trata-se, porém, de uma definição operacional própria, que não é universal. 

No Brasil, essa diferença tornou-se ainda mais clara com a Lei nº 15.436, de junho de 2026. A legislação define Altas Habilidades ou Superdotação como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada, entre outros fatores, por elevado potencial intelectual, intensa curiosidade, elevada capacidade de aprendizagem e profundo envolvimento em temas de interesse, podendo ainda envolver características socioemocionais específicas. A própria lei determina uma compreensão abrangente e reconhece diferentes formas de manifestação. Portanto, o critério brasileiro não corresponde simplesmente a “QI entre os 2% maiores”. 

O mesmo problema aparece noutros países. Nos Estados Unidos, a legislação federal de educação define estudantes gifted and talented a partir de elevada capacidade de realização em áreas que podem incluir inteligência, criatividade, artes, liderança ou campos académicos específicos, além da necessidade de serviços educativos diferenciados. Na Espanha, a Lei Orgânica de Educação determina que alunos com “altas capacidades intelectuales” sejam identificados pelas administrações educativas e tenham as suas necessidades avaliadas precocemente, também sem estabelecer pertença a uma sociedade de alto QI como critério equivalente. 

Em Portugal, documentos disponibilizados pela Direção-Geral da Educação também apresentam a sobredotação de forma multidimensional, recorrendo a modelos que consideram não apenas capacidade acima da média, mas também criatividade, envolvimento com a tarefa e diferentes formas de talento. 

A distinção não diminui a Mensa. Um resultado no percentil 98 ou superior é evidência relevante de capacidade intelectual elevada, e muitos membros podem preencher critérios de superdotação utilizados por diferentes modelos. O erro está em transformar duas categorias diferentes numa identidade automática.

Em termos mais precisos: todo membro da Mensa demonstrou desempenho intelectual dentro do critério de admissão da Mensa. Isso, sozinho, não permite afirmar que todos tenham sido formalmente identificados como superdotados segundo os critérios educacionais ou legais do Brasil, de Portugal, dos Estados Unidos, da Espanha ou de outros países.


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