sábado, 28 de janeiro de 2017

Estudo revela Shakespeare na obra de Machado de Assis

O Tempo

ENCONTRO


PUBLICADO EM 28/01/17 - 03h00

Pesquisadores descobrem pontos nos quais o autor brasileiro fez referências às obras do bardo




São Paulo. Eugênio Gomes, um dos primeiros críticos a se voltar para a questão, em meados do século XX, apontou “frequentes alusões” de Machado a Shakespeare, relacionando as principais. A norte-americana Helen Caldwell falou em 225 referências, mas sem dar a lista. O primeiro levantamento sistemático da extensão com que o escritor brasileiro se reportava ao dramaturgo inglês saiu em 2007, no estudo “Machado de Assis: O Romance com Pessoas”, de José Luiz Passos: 211 referências.

Agora “Machado & Shakespeare: Intertextualidades”, de Adriana da Costa Teles, acrescenta 62. Total: 273. Três tragédias se destacam: “Otelo”, nos romances, “Hamlet”, nos textos jornalísticos, e “Romeu e Julieta”, nos contos do “Jornal das Moças”.

João Roberto Faria, professor da Letras na USP e organizador de obras de Machado, avisa que pode vir mais por aí. Volta e meia “alguém descobre num jornal perdido” e, por exemplo, “pode aparecer coisa nova” na hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Teles conta que não era seu objetivo fazer uma nova lista, para o estudo sobre intertextualidade (influência de um texto na elaboração de outro) que começou como pós-doutorado. Mas ela começou a encontrar citações desconhecidas. “Aí eu li e reli toda a obra, de maneira que realmente não passasse nada, mas vai que descobrem algum texto novo”, diz.

Foi atrás das várias versões de cada obra, já que Machado adiantava escritos em jornais. “‘Quincas Borba’, por exemplo. Antes, ele publicou no jornal e citou Shakespeare. No livro, não. Em ‘Memórias Póstumas’, antes da dedicatória ao verme, também havia uma citação que foi tirada na primeira edição”, conta.

A tabela ajudou a esclarecer algumas questões. Eugênio Gomes (1897-1972) havia concluído que Machado passou a citar mais Shakespeare depois que atores italianos como Ernesto Rossi apresentaram as tragédias no Brasil.

O levantamento mostra, porém, que o número de referências é equivalente, antes e depois dos italianos. O que aconteceu, para Teles, é que depois das temporadas o escritor teria “incorporado Shakespeare ao seu trabalho, como um entrelaçamento”.

De modo geral, ela diz que, ao longo de toda a sua trajetória, Machado “é muito coerente com uma determinada maneira de fazer a intertextualidade, que é ironizar, reconstruir, só que isso vai ficando cada vez mais sofisticado” conforme amadurece.

Ambos apresentam “visão negativa, pessimista, com relação à sociedade”, o que os aproxima. Mas “são parte de momentos culturais muito específicos” e, portanto, “criações que faziam sentido na época de Shakespeare tiveram que ser transformadas”.

Em contraste com Caldwell, que buscou as semelhanças entre “Otelo” e “Dom Casmurro”, Teles se concentrou nas diferenças, apesar das citações todas. “Ele recria ‘Otelo’ a partir de uma percepção muito própria”, diz, “e aí não me parece trágico”.
As referências
“Revista de Teatros”, em “O Espelho”, 1859
“Não se comenta Shakespeare, admira-se.”
“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em “Revista Brasileira”, 1880
“E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego, como quem se retira tarde do espetáculo.”
“Curta História”, em “A Estação”, 1886
“Entrou Romeu, elegante e belo, e toda ela comoveu-se; viu depois entrar a divina Julieta, mas os dois não se falavam logo; ouviu-os, porém, falar no baile de máscaras, bebeu de longe as palavras eternamente belas, que iam cair dos lábios de ambos.”
“Bons Dias!”, em “Gazeta de Notícias”, 1888
“Há entre o céu e a terra mais acumulações do que sonha a vossa vã filosofia”
“Quincas Borba”, em “A Estação”, 1891
“Otelo exclamaria, se a visse: ‘Oh! Minha bela guerreira’. Rubião limitara-se a isso, ao começar o passeio: ‘A senhora é um anjo!’”
O Tempo

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