sexta-feira, 20 de maio de 2016

O desafio de fazer o encontro do Brasil real com o Brasil virtual

O Tempo

PUBLICADO EM 20/05/16 - 03h00

Leonardo Boff



Há dois Brasis que correm paralelos e que possuem lógicas e dinâmicas diferentes.

Há o Brasil dominante, profundamente desigual e, por isso, injusto, reproduzindo uma sociedade malvada, que não tem compaixão nem misericórdia para com as grandes maiorias. Segundo o Ipea, são 71 bilionários, ou 5.000 famílias extensas, que detêm grande parte da riqueza nacional e mostram parco sentido social, insensíveis à desgraça de milhões que vivem nas centenas de favelas que circundam quase todas as nossas cidades. Desses se originam, em grande parte, o ódio e a discriminação que tributam aos pobres e aos filhos da escravidão que se verifica ainda nos dias atuais.

Distancio-me decisivamente do pessimismo de Paulo Prado em seu ironizado livro de 1928, “Retrato do Brasil: Ensaio sobre a Tristeza Brasileira”, para quem a tristeza, a preguiça, a luxúria e a cobiça constituem os traços marcantes do brasileiro. Ao lado dessas distorções, vigora outro lado do mesmo Brasil, dos pobres que lutam bravamente para sobreviver e que, no meio da miséria, deixam transparecer uma alegria que vem de dentro: dançam e veneram seus santos e não têm necessidade de crer em Deus, porque o sentem na pele e em cada passo de sua vida. É o Brasil dos menosprezados pelos setores conservadores que se orientam pelo PIB e pelo consumo, considerados imprestáveis para o sistema porque produzem pouco e consomem ainda menos.

Esse Brasil cindido, com lados contrapostos, constitui uma contradição viva e escandalosa. Tem uma herança sombria que nos vem do etnocídio indígena que ainda persiste, do colonialismo que nos deixou o complexo de vira-latas e que penetrou, em forma de arquétipo psicológico, a estrutura da casa-grande e da senzala; ela se manifesta pelo fosso que cinde o país de cima a baixo e nos faz herdeiros de uma República com uma democracia que é mais farsa que realidade, pois é composta, em sua grande maioria, por corruptos que se beneficiam do bem público para realizar o bem privado.

O povo brasileiro, feito da amálgama de representantes de 60 países diferentes que para cá vieram, não acabou de nascer ainda. Está em processo de fazimento. Apesar das contradições, aponta para uma mestiçagem bem-sucedida que poderá configurar um rosto singular do país, como uma potência nos trópicos. O Brasil descrito acima me parece ser o real, repleto de injustiças e contradições.

Mas há outro Brasil ainda. É o Brasil do imaginário, que está nos sonhos do povo, a pátria amada, abençoada por Deus, o Brasil da humanidade cálida, da música popular e dos ritmos africanos, do futebol, do Carnaval, das praias e de gente bonita. Ele move os sentimentos do povo.

É a utopia Brasil, como nos ensinou o mestre Celso Furtado, “fruto de dimensões secretas da realidade, um afloramento de energias contidas que antecipa a ampliação do horizonte de possibilidades aberto a uma sociedade”, que queremos justa, fraterna e feliz (cf. “Em Busca de Novo Modelo: Reflexões sobre a Crise Contemporânea”, 2002, p. 37).

Esse Brasil só existe em sonho, mas está em estado nascente. O sonho e a utopia pertencem à realidade em seu caráter potencial e virtual. O dado é feito e não esgota as virtualidades do real. São essas virtualidades que antevemos como realidades futuras, que nos mantêm na jovialidade e nos alimentam a esperança de que os corruptos de hoje não triunfarão. Serão apagados da memória coletiva. Estigmatizados, cinza e pó cobrirão seus nomes.

Nosso desafio é fazer o encontro do Brasil real com o Brasil virtual.

O Tempo

Nenhum comentário:

Postar um comentário