sábado, 23 de dezembro de 2017

Onde a Europa e a África se misturam

No passado, por ali navegaram conquistadores. No presente, habitantes do continente mais pobre do planeta tentam cruzar o mar em busca de refúgio. No futuro, quem sabe, um túnel sairá do papel, ligando definitivamente Europa e África. Seja por interesse histórico, social, político ou geográfico, deve ser impossível atravessar incólume o estreito de Gibraltar. Ao menos da primeira vez.
No ponto em que os dois continentes estão mais próximos, são apenas 14 km – tipo a distância da Ponte Rio/Niterói. Mas, vindo de Europa ou África, de repente você se confunde e não sabe mais para qual dos dois está olhando. Só com a ajuda de quem conhece o estreito dá para decifrar a região. Aos poucos. Do lado africano, lá está a espanhola Ceuta. Do europeu, a cidade de Gibraltar, um enclave do Reino Unido em terras de Espanha.
Hoje o que não faltam são opções para quem quer navegar por esse imenso canal que mistura o Atlântico e o Mediterrâneo. Cruzeiros, em transatlânticos ou veleiros, têm programas regulares para a região, com tours pelas cidades em que atracam. Quem chega de avião pode contratar passeios curtos, de barco ou lancha, em diferentes portos. Para uma travessia rápida, em 35 minutos (dependendo das condições do mar), vai-se de catamarã de Tânger, no Marrocos, para Tarifa, na Espanha.
Maior do mundo
A travessia descrita aqui foi feita no Royal Clipper, segundo o “Guinness Book”, o maior veleiro de passageiros do mundo em sua categoria. Em roteiro de Lisboa a Málaga, a embarcação cruza o estreito e para em lugares de culturas extremamente diferentes, como Tânger e Gibraltar, além de cidades das províncias do Algarve, em Portugal, e de Andaluzia, na Espanha.
A cada partida de um desses portos, o comando do navio brinda os passageiros com uma cerimônia de impacto: começa a içar as 42 velas de seus cinco mastros ao som de “Conquest of Paradise”, tema do filme “1492”, que conta a história da descoberta do Novo Mundo. A associação daquele ambiente com cenas do nosso imaginário é imediata.
Há quem diga que a música podia ser trocada de vez em quando. Mas, a cada cerimônia dessas, a maior parte dos passageiros corre para a proa. E dali parece não se cansar de observar aquele pedaço do mundo onde África e Europa se confundem.


Navegar pelo estreito de Gibraltar propicia um encontro com história e geografia singulares


The Rock e macacos são as atrações de Gibraltar

1944. Corria a Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, acreditem, o então primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, encontrou tempo para telegrafar a Gibraltar e determinar que fossem adotadas medidas para ampliar a população de macacos-de-gibraltar (bérberes), que, àquela altura, se reduzira a apenas sete indivíduos.
É que Churchill recebera sinais de que a Espanha poderia tentar recuperar Gibraltar – ocupada pelo Reino Unido desde o início do século XVIII – e achou por bem dar ouvidos à crença popular segundo a qual enquanto os macacos estiverem no território, os britânicos também estarão.
Hoje, o bando tem cerca de 300 animais. Eles vivem soltos na parte alta do rochedo que se destaca na geografia de Gibraltar e é responsável por um dos simpáticos apelidos do lugar: The Rock; Gib é outro deles. Muito por conta da lenda, os bichos estão entre as principais curiosidades locais e recebem visitantes diariamente, a partir de um programa imperdível: fazer a viagem de teleférico ao topo do monte, de onde, em dias claros, se vê a África.
Em seis minutos o Gibraltar Cable Car avança 412 m e chega ao topo. No total, o rochedo tem 427 m (o Pão de Açúcar tem 396 m). O tíquete, a 14,5 libras (R$ 63, ida e volta), pode ser adquirido no site gibraltarinfo.gi/en/tickets.
O interior de The Rock serviu de base para tropas inglesas e americanas. E ali dentro, em túneis que somam 32 km de extensão, funcionaram três hospitais.
Ainda na montanha, mais surpresas. É preciso que alguém diga ao turista que os prédios e as ruas que ele vê lá embaixo, logo depois do aeroporto de Gibraltar, já estão fora da área do Reino Unido. Trata-se da cidade espanhola de La Línea de la Concepción, colada ao território britânico.
No aeroporto, encontra-se outra raridade: é o único do mundo que tem suas pistas cortadas por uma rodovia pública. A cada pouso e decolagem de avião, a avenida Winston Churchill fica fechada por uns dez a 15 minutos ao tráfego de veículos. Ela é a principal forma de se chegar por terra ao enclave.


EM GIBRALTAR

Onde se hospedar
Sunborn & Casino Resort.
 Diárias de casal a partir de US$ 256. sunbornhotels.com/gibraltar
The Rock Hotel. Diárias de casal a partir de US$ 175. therockhotelgibraltar.com
Onde comer
Bruno’s Bar Restaurant.
 Na Marina Bay.brunosgib
Passeios
Cable Car. R$ 63.
Visita a túnel + passeio. R$ 79. gibraltarinfo.gi/en/tickets

The Rock
Túneis usados na guerra
Há tours diários pelo local, com duração de 30 a 40 minutos e custa 8 libras (R$ 35). Para os túneis, é preciso comprar o tíquete para a Reserva Natural de Upper Rock, pagando mais 10 libras (cerca de R$ 44), incluindo atrações como o Castelo dos Mouros.
Tânger
Souk vende nacos de atum
No Grand Souk, em Tânger, salão da peixaria está sempre lotado de gente comprando de nacos de atum a porções de ameijoas. Mais adiante, um boxe de carne de boi, com tripas e bofes à mostra, também acaba sendo alvo das câmeras dos turistas.

Andaluzia
Arquitetura árabe
Próximo ao continente africano, a região da Andaluzia é marcada por uma suntuosa arquitetura de influência árabe, com belíssimos prédios. A inscrição, em palácio de Alhambra, diz algo como “Alá é o maior”.
O Tempo

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